Apoiar a maturidade 60 mais é ampliar ganhos

Apoiar a maturidade 60 mais é ampliar ganhos. Chegar nesse momento é descobrir que há muita experiência a se oferecer.

E assim, considere em sua jornada, seja você um jovem ou um adulto, apoiar e oferecer oportunidades de incluir e aproveitar o que possuímos de mais valioso: VIVÊNCIAS, SABEDORIA, BOM HUMOR E TRANSPARÊNCIA.

Trago aqui um artigo que identifica e mostra que, dada a evolução da saúde (medicina e alimentação), cada um e todos nós, Seres Humanos, vamos viver mais que nossos ascendentes. Vamos ao artigo:

A uberização da velhice

Encarar a escassez de trabalho na maturidade é uma realidade. Só tem bico!
Por Kika_Gama_Lobo criadora de conteúdo para a maturidade
Escritora 60+, podcaster, palestrante, sócia da Festa Kikando e influencer da maturidade

Há uma nova modalidade de aposentadoria no Brasil. Ela não vem com descanso, viagem, netos, hidroginástica ou cruzeiro. Vem com aplicativo, carro financiado, mochila nas costas, bolo no forno, plantão de acompanhante e a necessidade urgente de pagar o supermercado.

Bem-vindos à uberização da velhice.

A longevidade aumentou. A expectativa de vida esticou. O sujeito chega aos 65, 70, 75 anos com saúde, cabeça funcionando, experiência acumulada, repertório profissional e, muitas vezes, uma vontade enorme de continuar produzindo.

Mas, o mercado de trabalho olha para ele como quem olha para um produto vencido na prateleira.

“Ah, mas você tem muita experiência.” Tradução: você é qualificado demais para o salário que queremos pagar. “Ah, mas você tem idade para descansar.” Tradução: não queremos contratar você, mas também não queremos admitir que isso é idadismo.

E assim vamos vivendo essa esquizofrenia etária brasileira: ou somos superqualificados para as vagas disponíveis ou somos considerados velhos demais para ocupar posições compatíveis com tudo aquilo que aprendemos ao longo de décadas.

Aí vem a vida real, essa senhora pouco interessada em discursos motivacionais. A pessoa precisa comer. Precisa pagar aluguel. Precisa comprar remédio. Precisa comprar remédio. Precisa ajudar filho, neto, ex-marido, irmã, cachorro, condomínio, plano de saúde. A aposentadoria não dá conta. A reserva financeira nunca existiu ou evaporou com a inflação.

O mercado corporativo fechou a porta. E o boleto, esse jovem incansável, continua chegando. Então, aos 65+, 70+, 75+, muita gente volta para a ativa. Não porque quer “se reinventar”. Não porque descobriu uma nova paixão. Não porque decidiu empreender depois de assistir a uma palestra sobre propósito.

Mas, porque precisa colocar comida na mesa. E aí temos uma legião de pessoas maduras dirigindo carros, fazendo entregas, vendendo imóveis, acompanhando outros idosos — muitas vezes mais velhos do que elas próprias — fazendo bolos, doces e salgados, trabalhando como despachantes, contadores, consultores, pequenos prestadores de serviço.

O sujeito passou 40 anos trabalhando em uma empresa, acumulou experiência, liderou equipes, dominou processos, construiu relações, pagou impostos e, aos 68, descobre que sua grande oportunidade profissional é vender apartamento por comissão.

Ou dirigir dez horas por dia. Ou cuidar de um octogenário enquanto ele próprio já deveria estar pensando em como cuidar de si. Não há nada de indigno em ser corretor de imóveis, taxista, boleira, acompanhante, despachante ou contador. Absolutamente nada. O problema é quando essas ocupações deixam de ser uma escolha e passam a ser a única saída possível.

O problema é quando a sociedade diz: “Você ainda precisa trabalhar?

Então aceite qualquer coisa.” E é exatamente aí que mora a brutalidade da uberização da velhice. A pessoa madura é empurrada para uma espécie de mercado paralelo da sobrevivência. Um mercado sem carteira assinada, sem proteção, sem plano de carreira, sem aposentadoria futura, sem férias remuneradas e, frequentemente, sem qualquer garantia.

O discurso é: seja seu próprio chefe. A realidade muitas vezes é: seja seu próprio funcionário, seu próprio departamento financeiro, seu próprio plano de saúde e seu próprio fundo de emergência. E trabalhe até onde o corpo aguentar.

O Brasil envelheceu sem combinar com o mercado de trabalho. A régua da longevidade aumentou, mas as estruturas continuaram calibradas para uma sociedade em que as pessoas trabalhavam até os 55 ou 60, se aposentavam e desapareciam lentamente do mapa produtivo.

Só que esse mundo acabou.

Hoje, uma pessoa de 65 anos pode ter mais 20, 30 anos pela frente.

E não estou falando necessariamente de viver. Estou falando de viver com contas. O problema é que ainda tratamos a velhice como uma espécie de ponto final. Como se, ao completar 60 ou 65 anos, o indivíduo devesse automaticamente sair de cena.

O mercado corporativo continua fascinado por palavras como diversidade, inclusão, ESG, equidade e inovação.

Mas, experimente ter 62 anos e disputar uma vaga com alguém de 32. Você pode ter mais experiência, mais estabilidade emocional, mais capacidade de negociação, mais repertório e uma visão estratégica construída ao longo de décadas.

Mas, em algum momento, alguém perguntará: “Você tem disponibilidade para acompanhar o ritmo?”

O que essa pergunta frequentemente quer dizer é: “Você está velho demais para nós?” A resposta deveria ser: depende. Depende do trabalho. Depende da saúde. Depende da vontade. Depende da remuneração. Depende das condições. O que não pode depender é da idade cronológica.

Porque, se a pessoa tem competência para a função, por que a data de nascimento deveria ser uma barreira?

Apoiar a maturidade 60 mais é ampliar ganhos

E há outra perversidade: quando finalmente alguém decide contratar o profissional maduro, aparece a segunda armadilha.

A remuneração. Você tem experiência demais para ser júnior, mas o mercado quer pagar como se você estivesse começando. Você acumulou décadas de conhecimento, mas alguém acha que isso deveria custar menos porque você está mais velho.

É uma matemática perversa: quanto mais você sabe, menos querem pagar.

Ou querem que você seja um consultor sem salário, um freelancer sem direitos, um prestador de serviço sem proteção. A sociedade quer a experiência dos maduros, mas não quer pagar por ela.

Quer a maturidade, mas prefere a juventude. Quer a memória institucional, mas acha caro contratar quem a carrega. Quer alguém que saiba resolver crises, mas oferece uma remuneração de iniciante.

E nós seguimos mendigando por posições melhores. Mendigando por uma oportunidade. Mendigando para que alguém enxergue que ainda temos muito a oferecer. É humilhante. E mais humilhante ainda é a narrativa de que basta “se atualizar”. Claro que precisamos nos atualizar. Tecnologia não é inimiga. Inteligência artificial não é inimiga. Aprender coisas novas faz parte da vida.

Mas vamos combinar uma coisa? Não é razoável jogar toda a responsabilidade sobre o indivíduo.

O sujeito tem 65 anos, foi demitido, não consegue recolocação, não tem reserva financeira, precisa trabalhar e ainda ouve: “Você precisa fazer um curso de inteligência artificial.” Sim. Mas quem paga a conta enquanto ele estuda? Quem paga o aluguel? Quem compra a comida? Quem banca o plano de saúde? Quem garante que, depois do curso, alguém vai querer contratá-lo? A responsabilidade não pode ser apenas individual em uma sociedade que envelheceu coletivamente.

Precisamos discutir políticas públicas de trabalho maduro.

Precisamos discutir incentivos para empresas que contratem profissionais 60+. Precisamos criar modelos de trabalho mais flexíveis, sem transformar flexibilidade em precarização.

Precisamos reconhecer que uma pessoa de 68 anos pode não querer trabalhar 40 horas por semana — mas talvez queira trabalhar 20. Que uma pessoa de 72 anos pode não querer uma carreira tradicional — mas pode ser uma excelente mentora. Que uma pessoa de 75 anos pode não querer bater ponto — mas pode oferecer conhecimento, experiência e capacidade de decisão.

O futuro do trabalho não pode ser apenas para os jovens. E o futuro da velhice não pode ser apenas para quem tem dinheiro. Porque existe uma enorme diferença entre escolher continuar trabalhando e ser obrigado a continuar trabalhando. Uma é liberdade. A outra é sobrevivência.

E o Brasil precisa urgentemente parar de confundir as duas.

Nós, os maduros, não queremos necessariamente continuar trabalhando para provar que somos jovens.

Queremos trabalhar porque ainda temos competência. Porque ainda temos desejo. Porque ainda temos contas. Porque ainda temos projetos. Porque ainda estamos vivos.

O problema é que, para o mercado, estar vivo depois dos 65 parece quase uma provocação. E talvez seja mesmo. A pergunta que precisamos fazer não é “até quando os idosos vão trabalhar?”.

A pergunta é: “até quando vamos aceitar que pessoas maduras tenham que implorar por uma oportunidade compatível com sua capacidade?”

A velhice não está chegando aos 65. Ela está chegando aos 80, 90, 100.

E nós continuamos organizando o trabalho como se todo mundo tivesse que desaparecer aos 60. Não vai acontecer. Nós estamos aqui. Mais longevos. Mais numerosos. Mais necessários. E, se o mercado não abrir espaço para nós, a vida vai continuar inventando saídas.

Vamos dirigir. Vender. Cozinhar. Cuidar. Entregar. Prestar serviço. Fazer bico. Trabalhar por aplicativo. Não porque isso seja necessariamente o nosso sonho. Mas porque a fome não respeita a idade. E o boleto não tem preconceito.

Quem tem preconceito é o mercado. E talvez esteja na hora de parar de pedir licença.

Afinal, depois de uma vida inteira trabalhando, contribuindo e pagando a conta, nós não deveríamos estar mendigando por um lugar à mesa. #prontofalei

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Fonte: https://vejario.abril.com.br/coluna/kika-gama-lobo/a-uberizacao-da-velhice/

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